sexta-feira, 29 de março de 2019

Não sei se te disse...




NÃO SEI SE TE DISSE
como vejo crescer uma árvore:
primeiro é quase nada,
uma pequeníssima raiz irrompendo
de uma palavra vegetal que o vento
deixa cair no solo lavrado do meu poema.
E depois cresce, alonga os braços e dá ninhos
e cresce ainda alheia a corvos solitários
"Nunca mais"
"Tantos amigos tão leais".

E quando uma primeira flor desponta
no canto mais alto da página
é para ti que a guardo até ao fruto, até ao fim,
até que se arredonde a sombra
contra a minha escrita

não sei se te disse...
como uma sombra nos pode ser branda
nos augúrios do verão.

Lídia Borges






(imagem: Rafael Obinsky)