segunda-feira, 12 de agosto de 2019

À conversa com... Manoel de Barros



Um poema é antes de tudo um inutensílio

Manoel de Barros


Mas eu tenho vocação de formiga, Manoel,
com a única dissemelhança de carregar  
para a minha arrecadação coisas mais leves
que um silêncio ou uma gota de água 
viciada em pedra.

Possuo na memória uma grande fortuna 
em inutensílios e por isso, Manoel, 
é que tomei este jeito de nuvem.

Os inútensílios eu uso-os como guarda-chuva
ou pára-vento. Às vezes solos de violino 
ou mesmo gomos de glicínias. Lilases.

Os meus inutensílios comprometem-me. 
Ninguém acredita que eu saiba usá-los
como sumo de limão ou rubor de melancia,
como orvalho, flor, borboleta pousada 
num ramo de tomilho...
Ninguém acredita!

Os meus inutensílios, Manoel,
utilizo-os de março a março como raiz e asa
para cingir horizontes

e vou…



   Lídia Borges 


(imagem s/ ind. autoria)  

(reeditado)