
Um poema é antes de tudo um inutensílio
Manoel
de Barros
Mas eu
tenho vocação de formiga, Manoel,
com a
única dissemelhança de carregar
para a
minha arrecadação coisas mais leves
que um silêncio ou uma gota de água
viciada em pedra.
Possuo
na memória uma grande fortuna
em inutensílios e por isso, Manoel,
é que tomei este jeito de nuvem.
é que tomei este jeito de nuvem.
Os
inútensílios eu uso-os como guarda-chuva
ou pára-vento. Às vezes solos de violino
ou mesmo gomos de glicínias. Lilases.
Os meus
inutensílios comprometem-me.
Ninguém acredita que eu saiba
usá-los
como sumo de limão ou rubor de melancia,
como orvalho, flor, borboleta pousada
num ramo de tomilho...
Ninguém acredita!
Os meus
inutensílios, Manoel,
utilizo-os de
março a março como raiz e asa
para cingir horizontes
e vou…
Lídia Borges
(imagem s/ ind. autoria)
(imagem s/ ind. autoria)
(reeditado)