Pergunto-me
quanto vale um poema. O que faria, quanto ou o que daria por um, se acidentalmente
o perdesse?
Endireito os
ombros, respiro fundo e começo a licitar: um braço, [o que me dói], o relógio de
oiro da avó que não dá horas; as pêras,
as ameixas e as maçãs que hoje foram colhidas das árvores do pátio; esta
pulseira que me ofereceram para contar os passos e nunca, ao final do dia, os
passos, bastantes; o anel de curso todo ele gravado com mochinhos feios; o
girassol que nasceu abusivamente num vaso de orquídeas, na varanda…
Depois de mil
divagações, que aqui não cabem, acerca de cada uma das hipóteses, chego à
conclusão de que um poema não vale nada disso, embora cada uma das coisas enumeradas valesse, sem dúvida nenhuma, um poema.
Um poema pode mesmo não valer nada, mas um poema que
se perde tem um valor incalculável, um valor muito além da matéria, um valor impagável. É como um
pedaço de vida que, de repente, se apaga e nos deixa uma dependência do coração às
escuras. Horas e horas, a tentar decifrar o vazio onde um poema
fora presença. Apanha-se uns sobejos, aqui e ali, uma estrofe truncada, umas sílabas rasgadas, um
barco, um cheiro qualquer, um sabor, uma luz mortiça, farol envolto em nevoeiro,
mas chegar ao poema é esforço inglório. Morre-se exausto na praia.
Talvez por isso
mesmo, nestes últimos dias, ninguém me atura o mau-humor: Afinal o que perdeste? - umas
pastas cheias de palavras? Escreves outras. Para que servem os discos externos, os sites de armazenamento na internet?
Nem pareces dos dias de hoje, hoje só perde inform…
Desligo. O meu disco externo está cheio.
Desligo. O meu disco externo está cheio.
***
Pois é! O meu
computar NOVO desfaleceu.
Foi o disco
rígido - disse-me rigidamente o técnico, com um sorriso irritante. Não é
possível recuperar nada. E, ao ver o meu ar incrédulo (?): Se tiver alguma coisa
mesmo muito importante, há empresas altamente especializadas que podem tentar,
mas aviso-a já que pagará por esse trabalho um valor que se situará entre os
150 e os 900 euros…
Não. Não tenho
aí nenhum segredo de estado. E para comigo - só poemas e umas "historinhas" de criança… e tudo o
resto de que agora não me lembro.
Sinto-me irremediavelmente “roubada”.
Lídia Borges
(imagem: pesquisa Google)
