Devolveram-me, enfim, o computador, após o "apagão" completo que levou para terras do sem fim, quanta palavra/imagem/documento eu lá guardava. – Sumariamente – diz o técnico, arqueando a sobrancelha - só a casca é a mesma, de resto foi tudo substituído.
Sim,
sei!... A casca!...Pois.
Havia,
(há) um disco externo, desatualizadíssimo, mas que, ainda assim, me permitiu
revisitar alguma "prosa" já meio esquecida: uns
prefácios, umas reflexões, uns textos de apresentação de livros que fiz para
amigos, algumas tentativas de poemas, alguns documentos que me podem ainda fazer falta.
Animada com estes achados, tenho-me dedicado a inspecionar tudo o que
possa conter umas "luzes" do trabalho perdido, (coisa pouca, aquilo que faço, diariamente, sem lhe
chamar, sequer, trabalho). Umas pens USB, esquecidas numa gaveta
da secretária, blocos de notas, cadernos velhos, textos que imprimi para
facilitar revisões são passados a pente fino. Milagrosamente, lá me vão sendo devolvidos uns versos, umas
crónicas, uns apontamentos e assim me vou (re)construindo e ao meu mundinho de
quase nada, de quase tudo. Acontece-me, às horas mais impróprias, lembrar-me
subitamente de um esboço qualquer, de um conto para crianças – aquele da
alma do padeiro, como era? Um buraco dentro do pão reservado aos sonhos?!... e
ponho-me imediatamente a congeminar um levantamento das possibilidades de
recuperação: talvez no moleskine, talvez... e lá vou eu procurar [me]
em páginas e páginas rasuradas, riscadas, rejeitadas. A verdade é que quando, por sorte ou
por mão divina, deparo com algum escrito, com pés e cabeça, sinto-me feliz
como se tivesse encontrado um tesouro. Agradeço ao anjo que se apiedou de
mim: vá, toma lá estas letrinhas de nada e não te amofines. E eu, cá
na terra, sensível a estes gestos divinos de acarinhar - Olha!... Poesia
para crianças! Ah, que maravilha!... Que bonito, isto... e aquilo, não está
nada mal!...
Felizmente,
nos dias que se seguem, tudo volta ao seu devido lugar, onde o bom e o bonito se
recoloca, lucidamente, a leste da maravilha e eu crio uma pasta
nova – "rever/reescrever/ignorar" - que deixo suspensa, no
Ambiente de Trabalho, por onde divago como se nas areias brancas de um
deserto.
Lídia Borges
Lídia Borges
Pintura: Edouard
John Mentha (Suiza 1858 – 1914)
