domingo, 15 de setembro de 2019

Como novo!




  Devolveram-me, enfim, o computador, após o "apagão" completo que levou para terras do sem fim, quanta palavra/imagem/documento eu lá guardava. – Sumariamente – diz o técnico, arqueando a sobrancelha - só a casca é a mesma, de resto foi tudo substituído. 
Sim, sei!... A casca!...Pois. 

Havia, (há) um disco externo, desatualizadíssimo, mas que, ainda assim, me permitiu revisitar alguma "prosa" já meio esquecida: uns prefácios, umas reflexões, uns textos de apresentação de livros que fiz para amigos, algumas tentativas de poemas, alguns documentos que me podem ainda fazer falta. Animada com estes achados, tenho-me dedicado a inspecionar tudo o que possa conter umas "luzes" do trabalho perdido, (coisa pouca, aquilo que faço, diariamente, sem lhe chamar, sequer, trabalho). Umas pens USB, esquecidas numa gaveta da secretária, blocos de notas, cadernos velhos, textos que imprimi para facilitar revisões são passados a pente fino. Milagrosamente, lá me vão sendo devolvidos uns versos, umas crónicas, uns apontamentos e assim me vou (re)construindo e ao meu mundinho de quase nada, de quase tudo. Acontece-me, às horas mais impróprias, lembrar-me subitamente de um esboço qualquer, de um conto para crianças – aquele da alma do padeiro, como era? Um buraco dentro do pão reservado aos sonhos?!... e ponho-me imediatamente a congeminar um levantamento das possibilidades de recuperação: talvez no moleskine, talvez... e lá vou eu procurar [me] em páginas e páginas rasuradas, riscadas, rejeitadas. A verdade é que quando, por sorte ou por mão divina, deparo com algum escrito, com pés e cabeça, sinto-me feliz como se tivesse encontrado um tesouro. Agradeço ao anjo que se apiedou de mim: vá, toma lá estas letrinhas de nada e não te amofines. E eu, cá na terra, sensível a estes gestos divinos de acarinhar -  Olha!... Poesia para crianças! Ah, que maravilha!... Que bonito, isto... e aquilo, não está nada mal!... 
Felizmente, nos dias que se seguem, tudo volta ao seu devido lugar, onde o bom e o bonito se recoloca, lucidamente, a leste da maravilha e eu crio uma pasta nova  – "rever/reescrever/ignorar" - que deixo suspensa, no Ambiente de Trabalho, por onde divago como se nas areias brancas de um deserto. 

Lídia Borges

Pintura: Edouard John Mentha (Suiza 1858 – 1914)