sábado, 16 de novembro de 2019

(Do) Tempo







Na monocromia da paisagem
passa a correr como golpe de vento
que viesse somente para destruir.
Tem a voz emaranhada nas
cordas gastas da garganta.
Sóbria, plural, ardilosa.
Do peito sobe-lhe um luto subterrâneo,
suspiro rouco que freme, brame, clama
e em febril tumulto atraiçoa.

Os corpos e o sol e o sal e o sangue
brumas, nuvens, iras
em rodopio encarcerado
nos braços rudes da desumanidade.

Haverá a jusante desse rosto
alguma pétala que permaneça?
O que levarei de ti:
a insolência, o egotismo, a loucura?
Passado será o passar desta água baça,
outono pálido frente a uma janela
de contemplações poucas.
E eu desde já te lastimo, fera ferida,
extinto o fervor do uivo
e da fala que fora seiva, flora, flor,

fingimento, ora findo.




Lídia Borges






(imagem: pintura de minha autoria, (óleo sobre tela 70X50cm)