sábado, 23 de novembro de 2019

Velharias

Vladimir Kush


Vendo a bom preço
nuvens pequenas e grandes
de cores e formatos diversos.
Não é bom ficar atado
a ventos sempre dispersos.

Vendo os ninhos que ficaram
nos ramos dos limoeiros
e o conjunto de duendes 
que cuidaram dos canteiros.
Não se pode desprezar
braços que foram obreiros.

Vendo os caracóis do muro
e a coleção de catos,
as estrelas que no pátio
desfaziam o escuro.
Não se pode deixar tudo
ao relento a definhar,
não estivesse o futuro
sempre a tempo de voltar.

Vendo a lua e o luar.
Quem disse? - Não eram teus.
Eram, pois! Assim os sentia
meu coração deslumbrado 
quando nos ombros me caíam,
manto de cambraia rendado.

Vendo os livros, as pinturas,
a rã de barro, a relva,
o rosmaninho,
vendo tudo a bom preço
que é hora de hibernar.
Não quero deixar desperdícios 
pelo caminho, a errar.

***

Quem me compra o girassol
não o podendo eu salvar?

Quem quiser levá-lo agora
deve ter para pagar
um verso breve de sol,
uma intenção de [a]mar.






Lídia Borges