quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Para dizer o indizível


Havia uma intenção madura
de traduzir a terra,
escutar-lhe a correnteza da seiva,
o despertar lento da semente,
a obediência das raízes.

Para dizer o indizível
onde buscar as palavras
hoje
que o meu alfabeto
amanheceu ensimesmado
e foi sentar-se todo o dia
nas horas poentes
a remoer passados
a dobrar e a desdobrar saudades

Hoje,
a voz ficou-me só
para os silêncios.

Lídia Borges (2011), No Espanto das Mãos - o Verbo, Lua de Marfim.
(imagem: óleo sobre tela de minha autoria)