quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Os mestres não são infalíveis


(Imagem: óleo sobre tela, s/ind, autoria)


I

Com o tempo as palavras tomam-se
de indistintas confianças.
Ainda que cerimonioso
o trato que lhes damos
tendem a exceder-se,
a largar o fato, os sapatos,
a tirar a gravata,
a usar pijama e chinelas
na sala de visitas,
a confundir descontracção
com má educação.


II

Pedem-nos que desçamos uns degraus
na escada [inviolável] da compostura,
que nos sentemos à mesa com as mãos por lavar
e que nos deitemos de olhos baços, 
como quem ama só por amar.
Pedem-nos que sejamos quem não somos
dentro de nossas paredes robustas. Ignoramos.

As palavras, as palavras…
Involuntariamente
acabam por instruir-nos na arte de calar.
Logo elas, as palavras, que subsistem, apenas,
para amordaçar silêncios. Impossíveis.
Enfim…

III

Os mestres não são infalíveis.