terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Tão longe e tão perto



Dois poemas do meu No Espanto das Mãos, 2011, cuja epígrafe reza assim:

Um poema às vezes é só
um pedaço de terra estéril,
uma ânfora quebrada,
um pássaro preso
no coração do poeta.

Lídia Borges



Outrora eram lisos os atalhos (poema da p.11)

Outrora eram lisos os atalhos
e macias as cumplicidades.
As minhas palavras sabiam de cor
o caminho para o teu coração.

Mas isso era quando eu tinha
sempre poesia para te dar
quando as nuvens brancas
tocadas pelo vento
eram flores ou búzios
pássaros ou peixes.
Era quando nas minhas veias
corria a luz de um sol
sempre aceso.

Era no tempo em que as palavras
tinham o sopro dos deuses
que só sabem coisas
edificadas sobre a poesia e o amor.
Era no tempo em que à entrada
da noite, na minha rua,
não havia versos sem abrigo
encostados a portas solidamente
fechadas.



Poeta (poema da p.23)

Poeta? Não.
Quando muito
pressinto os rumores de poemas passantes
versos ocultos por entre os ramos
na floresta de papel que nos habita.

De quando em vez
um forte estrebuchar de asas na folhagem
um distúrbio, um apelo
como se o voo fosse acontecer
e o poema adejasse azul e infinito
no céu da minha contemplação.

Ilusão!

O que imprimo é então o que sobra
de um voo frustrado.
Apenas o pó levantado
no bater de asas
do eterno poema denegado.


Lídia Borges