quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Caderno s/d





Deste caderno decoro páginas
derrubo pontes que eram no pensamento.
Visito lugares onde estivemos juntos: a cidade
o mar a quinta o monte a igreja o céu,
a infância da casa e dos olhares.

Permito que cresçam os trevos
as ervas daninhas as flores silvestres
nesses lugares onde fomos para sempre.
Ecos coloridos no cerne das palavras
que se perdem a caminho da boca.
Deixo que se desalinhem tempo e espaço
numa espécie de abandono aquiescido.

Não sei como te perdoar. Desculpa
eu não saber como perdoar
o escuro superlativo dos teus olhos 
quando decidiste anoitecer sem mim.

Não sei como te perdoar 
como perdoar a mim própria 
estes olhos meus de ver claramente
no escuro.



Lídia Borges 
(de um caderno de poemas encontrado por mero acaso, dentro de uma pasta velha. Sem datas.)


(imagem: pesquisa Google s/ind. autoria.)