O Sublime é do mundo de ontem – disseram.
Deixe de sublimar o seu abominável Sublime.
O mundo de agora está farto de pássaros
e de voos azuis.
O mundo de agora não tem verde que
chegue para tantas árvores,
não tem água para tantos rios nem rios
para tanto mar.
O mundo de agora descarta ânforas e
fontes e hinos,
descarta cantigas de Orpheu e
milagres de Eros.
Ignore esse insuportável para sempre.
A metafísica?... A metafísica, não mais
que emoção
em permanente estado gasoso, sem corpo
que se eleve a equação.
Se por defeito ou feitio – disseram -
lhe é sofrimento a ausência do Sublime, saiba que
está abusivamente instalado num tempo
que não é o seu.
Aconselho-o a recuar, a consultar o
arquivo – letra R – Rilke
Está lá tudo. Não se mace mais com
poemas elegíacos.
Mas se lhe for, de todo, penoso esse
movimento de recuo,
pode sempre avançar.
Para encontrar de novo o Sublime, procure talvez em M – Morte.
Aqui e agora é que ele não cabe. Vá,
decida-se - disseram.
Lídia Borges (2019), Garças. Poética Edições.
Lídia Borges (2019), Garças. Poética Edições.
