sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Do Sublime


O Sublime é do mundo de ontem – disseram.
Deixe de sublimar o seu abominável Sublime.
O mundo de agora está farto de pássaros e de voos azuis.
O mundo de agora não tem verde que chegue para tantas árvores,
não tem água para tantos rios nem rios para tanto mar.
O mundo de agora descarta ânforas e fontes e hinos,
descarta cantigas de Orpheu e milagres de Eros.
Ignore esse insuportável para sempre.
A metafísica?... A metafísica, não mais que emoção
em permanente estado gasoso, sem corpo que se eleve a equação.

Se por defeito ou feitio – disseram -
lhe é sofrimento a ausência do Sublime, saiba que
está abusivamente instalado num tempo que não é o seu.
Aconselho-o a recuar, a consultar o arquivo – letra R – Rilke
Está lá tudo. Não se mace mais com poemas elegíacos.
Mas se lhe for, de todo, penoso esse movimento de recuo,
pode sempre avançar.
Para encontrar de novo o Sublime, procure talvez em M – Morte.

Aqui e agora é que ele não cabe. Vá, decida-se - disseram.



Lídia Borges (2019), Garças. Poética Edições.