quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Não sei como vieste "In memoriam"

 A meu pai:

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Eugénio de Andrade


Inexcedível a mudez do teu rosto
na moldura.
Que música escutas tão atentamente
Que não dás por mim?
Contemplo em ti tanto
do que me é infância e inocência.

Já começaram a florir as glicínias
no muro, sabes?
no ar volteja inebriante,
o lilás do seu perfume
a acordar lembranças.

Ébrias, põem-se a percorrer
os dias, os meses, os anos
que não pudemos atravessar 
juntos.
Penso para comigo que
deve haver algum fundamento
na suspeita do poeta:
“algum caminho deve haver
para regressar da morte.”

Essa voz de embalar que oiço é a tua,
presença amável a habitar-me os sentidos,
água fresca no latejar das angústias,
sopro cálido nos longos frios do inverno,
júbilo na floração dos sonhos.

Sim, deve haver um caminho
para regressar da morte...
se assim não fosse, como esta vaga,
esta música…
esta brisa, quase beijo
a pousar-me na alma, ave levíssima,
alegre, ao ponto de chorar.


Lídia Borges (reeditado)