sábado, 8 de fevereiro de 2020

"Moto Contínuo" - Miguel Torga

(Google, s/ ind. autoria)

Por onde passo sem cantar, já canto
Com a voz que hei-de ter.
O meu silêncio é sempre
O avesso dum verso
Ainda condenado
Ao purgatório do indefinido...
Só quando ali estiver purificado
Poderá ser ouvido.

Ouvido por alheias criaturas.
Eu,
Vítima, algoz e tronco de tortura,
Oiço o trovão
Antes da trovoada...
E arrasto, portanto,
A cruz futura do futuro canto,
Mesmo quando parece muda a caminhada.



Miguel Torga (2014,7.ª edição, p.327), Antologia Poética.