I
Para onde me conduziriam
as palavras se as convocasse, agora?
Um ancoradouro, uma estação, um apeadeiro?
Um espaço de não pertença, de alheamento.
Passagem, somente, estou certa.
Sou já estrangeira, aqui, aonde me vêem.
Transitória, passageira,
viajante transfigurada mil vezes, em interpostas fábulas
Fabulosas.
II
Um banco de madeira
de frente para o relógio na parede, um livro aberto,
um bilhete na mão, com destino indefinido,
um aroma de café torrado
acidulado pelo fumo dos cigarros,
um jornal de ontem amarrotado,
passantes anónimos de gabardina
e mala de mão,
indiferentes ou não, atentos ou não,
vagarosos, apressados, alienados,
desconhecidos sem rosto,
sem corpo, sem identidade.
Um não-lugar
para pousar a bagagem, por um momento.
Lídia Borges
(imagem:Arileza Darlish)
