Um dia disseste
que o teu mundo se acanhava, irremediavelmente,
que mal podias mover um músculo dentro dele
e que, do lado de fora, todos os percursos te ardiam
no deserto das veias.
Estavas mal, às mãos da morte. Doía-te a vida toda,
mais que o corpo, talvez... não sei. Que a dor
tem essa particularidade perversa de não se dar a provar
se não a quem a hospeda, sem desejo nem escolha.
Nas horas de cansaços extremos
não se pode dizer ou ouvir da boca de outrem:
deixa, eu tomo conta da tua dor
enquanto tu te recompões
ou gastas com os que amas um pouco mais
da alegria que te coube, à nascença. Não se pode.
Pela primeira vez, eu vejo claramente
a impossibilidade de lidar com o peso
de certas expressões:
liberdade de escolha,
escolha em liberdade,
de certas palavras: escolha, liberdade...
[que liberdade? que escolha?]
Eis o epicentro rubro e agudo,
não da tua, mas da nossa dor coletiva
que não dorme.
Nunca soube explicar porque magoam tanto
as palavras que me não cabem inteiras no coração.
As que não consigo apertar num braçado único.
Como se as que levo usurpassem o lugar das que deixo
e as que deixo pudessem crescer, igualmente,
no espaço das que levo.
Lídia Borges
(imagem s/ind, autoria)
