terça-feira, 10 de março de 2020

De índole assaz azeda


(Imagem:  Angela Felipe - A mulher só)




De índole assaz azeda
tez audaz tom emproado
convoca a poesia
com voz rouca de ironia
um tom abaixo do agro.

Vendo pedra diz, é pau
se é pau diz, ledo engano.
O oposto assim vertido
com lata e com desdém
é escrito invertido
não o negará ninguém.

A vida não lhe é poema
morrem-lhe esperas e girassóis.
Perdidas as pérolas poucas
secam-lhe peixes nos anzóis.
Do sonho não sobrou pena,
da asa, nem voos nem rotas.

Que se gaste assim a pena
em snobes cambalhotas
infringidas ao poema,
tenho pena.



Lídia Borges