sexta-feira, 6 de março de 2020

Pelo canto do olho


imagem - Claude Monet - Mulher com Sombrinha (1886) 



Era uma varanda cheia de rosas trepadeiras
curiosas faustosas lustrosas.
Aos pares, borboletas de cores verdadeiras
e não mais que meia dúzia de abelhas. Obreiras.
Havia uma mesa posta para o café 
(cevada, eu tomo cevada).

As torradas [se ali se vissem]
haveriam de derreter-se para a manteiga
ou para a goiabada caseira.
Sobre a toalha bordada 
um frasco de cristal
enlaçava dois pezinhos de alfazema
que iam fazendo feliz o poema.

Pelo canto do olho, estou certa,
vi passar uma dama de sombrinha aberta.
Seguia-a de perto Claude Monet
que em vez da boina usava um boné.
Seguia-a de perto armado de cavalete e tela
e não tirava os olhos dela.

Quando dei por mim o azul sumira
[com nuvens e tudo].
Levara-o para fundo o pintor 
sobre o qual daria uma impressão do seu amor.
Era tarde. Saltei do sonho para o chão
e não, não eram do coração as batidas
ouvidas.

Era o padeiro à porta para entregar o pão 
que faltava àquela mesa na varanda do sonho 
[ou da imaginação].

E é isto, acontecem-me coisas assim:
Ou tenho o sonho e não tenho o pão.
Ou tenho o pão e não tenho o sonho.
Só a mim!...


Lídia Borges