imagem - Claude Monet - Mulher com
Sombrinha (1886)
Era uma varanda cheia de
rosas trepadeiras
curiosas faustosas lustrosas.
Aos pares, borboletas de
cores verdadeiras
e não mais que meia dúzia de abelhas. Obreiras.
Havia uma mesa posta para o
café
(cevada, eu tomo cevada).
As torradas [se ali se vissem]
haveriam de derreter-se para
a manteiga
ou para a goiabada caseira.
Sobre a toalha bordada
um frasco de cristal
enlaçava dois pezinhos de
alfazema
que iam fazendo feliz o poema.
Pelo canto do olho, estou
certa,
vi passar uma dama de
sombrinha aberta.
Seguia-a de perto Claude
Monet
que em vez da boina usava um
boné.
Seguia-a de perto armado de cavalete e tela
e não tirava os olhos dela.
Quando dei por mim o azul
sumira
[com nuvens e tudo].
Levara-o para fundo o pintor
sobre o qual daria uma impressão do seu amor.
Era tarde. Saltei do sonho para o chão
e não, não eram do coração as
batidas
ouvidas.
Era o padeiro à porta para entregar o pão
que
faltava àquela mesa na varanda do sonho
[ou da
imaginação].
E é isto, acontecem-me coisas assim:
Ou tenho o sonho e não tenho o pão.
Ou tenho o pão e não tenho o sonho.
Só a mim!...
Lídia Borges
