Última hora
O sol inundou-se de nuvem.
Tenho pouco vento para
puxar palavras.
Sinto arroubos de árvore.
Uma dor no ombro espanta os passarinhos.
Na soleira de um verso nado
duas tulipas ensaiam feições
de pétalas.
As lesmas descuram os vestidos
e arrastam sua pura nudez na pele enrugada do muro.
As aranhas enrolam o nascente
de um canto
nas trepadeiras orvalhadas.
O poeta dobra
e desdobra canseiras
num solo de
flauta entre falas de amanhecer.
Há no ar incumbências de água de rosas,
um perfume qualquer de mariposas.
Não dos alfabetos se faz mundo? Que importa?
Esfarelo o ouro e o azul que tenho à mão
para corromper de beleza, tanto feio.
Depois há de vir a harpa
iluminar o silêncio
das coisas sem música e sem nome.
Lídia Borges
(Pintura: Ângela Felipe)