I
Desperta deserta a rua,
Traz ardências aos olhos
e a aragem de tempo incertos.
Abro a janela.
Preciso de alcançar algum bálsamo
que dê sentido a mais um dia
de reclusão
de reclusão
mas é o negro luzidio de um melro
que vem passarinhar-me o olhar.
Quando espavorido levanta voo
deixa um presságio de sombra
pelas veredas de um Abril,
pouquíssimo.
Viajo por dentro
um jardim florido no cento da cidade.
A Grândola Vila Morena
entoada pelas ruas,
bandeiras, risos, cravos vermelhos,
sonhos ateados, abraços, lágrimas…
Lembro-me.
A euforia cálida da minha mão na tua.
A alegria que eu segurava com garra
porque era uma alegria muito nova,
porque era linda,
porque era linda,
porque era… tinha de ser
para sempre.
E depois desse desejo ingénuo
de prender para sempre a Liberdade
nunca mais a vi, de frente.
Fora uma aparição fantástica. Irreal.
Depois tu morreste, depois a Liberdade
adoeceu e eu cresci.
Da Liberdade guardei mil versos,
mil hinos, odes e louvores,
teatros, enganos, conquistas, derrotas,
quantos contra, quantos a favor?
A contabilidade sempre a dividir,
a partir em lugar de unir.
II
Hoje estou em casa.
Alguma coisa cujo nome nada me diz
aprisionou dentro de portas a cidade
dentro de nós a distância.
Impôs-nos o isolamento
como quem se diz dono de tudo,
da própria Liberdade.
Cantaremos hoje em coro
a Grândola Vila Morena,
a Fraternidade, a Amizade, a Igualdade.
Havemos de cantá-la à janela,
dentro de casa,
dentro de casa,
na sala, no quintal, na cozinha,
dentro do peito
onde Abril será eternamente
um jardim ateado de bandeiras,
risos e cravos, sonhos, abraços
e lágrimas…
Uma alegria indomável
que nada nem ninguém poderá apagar
da lembrança,
do futuro.
Lídia Borges
da lembrança,
do futuro.
Lídia Borges
