sábado, 25 de abril de 2020

ABRIL


I

Desperta deserta a rua,
Traz ardências aos olhos
e a aragem de tempo incertos.

Abro a janela.
Preciso de alcançar algum bálsamo
que dê sentido a mais um dia 
de reclusão
mas é o negro luzidio de um melro 
que vem passarinhar-me o olhar.
Quando espavorido levanta voo
deixa um presságio de sombra
pelas veredas de um Abril,
pouquíssimo.

Viajo por dentro 
um jardim florido no cento da cidade.
Grândola Vila Morena
entoada pelas ruas,
bandeiras, risos, cravos vermelhos,
sonhos ateados, abraços, lágrimas…
Lembro-me.

A euforia cálida da minha mão na tua.
A alegria que eu segurava com garra
porque era uma alegria muito nova, 
porque era linda,
porque era… tinha de ser
para sempre.

E depois desse desejo ingénuo
de prender para sempre a Liberdade 
nunca mais a vi, de frente.
Fora uma aparição fantástica. Irreal.
Depois tu morreste, depois a Liberdade
adoeceu e eu cresci.

Da Liberdade guardei mil versos,
mil hinos, odes e louvores,
teatros, enganos, conquistas, derrotas,
quantos contra, quantos a favor?
A contabilidade sempre a dividir,
a partir em lugar de unir. 

II

Hoje estou em casa.
Alguma coisa cujo nome nada me diz
aprisionou dentro de portas a cidade
dentro de nós a distância.
Impôs-nos o isolamento
como quem se diz dono de tudo,
da própria Liberdade.

Cantaremos hoje em coro 
a Grândola Vila Morena,
a Fraternidade, a Amizade, a Igualdade.
Havemos de cantá-la à janela,
dentro de casa,
na sala, no quintal, na cozinha,
dentro do peito
onde  Abril será eternamente
um jardim ateado de bandeiras,
risos e cravos, sonhos, abraços
e lágrimas…

Uma alegria indomável 
que nada nem ninguém poderá apagar
da lembrança,


do futuro.


Lídia Borges