quarta-feira, 22 de abril de 2020

Terra


I

A minha cidade tinha um parque.
No parque da minha cidade havia um lago
e nas margens do lago mil coaxares alegres de rãs.
Altíssimas, as árvores filtravam escrupulosamente a luz 
até que a se aproximasse à brandura dos musgos.
E tudo em redor se tingia de verde-sombra.
O parque da minha cidade era verde-sombra
como a teus olhos, os meus.
Havia uma fonte a compor  trovas d'água
e as tuas mãos em concha para eu levar à boca
nas tardes quentes de verão.

II


A minha cidade tem um parque.
No parque da minha cidade há um lago.
A água do lago absorve e conserva
todo o negrume das noites
e por causa disso secam os coaxares das rãs
nas margens;
As árvores [raras] não conseguem
aproximar a sombra à brandura do musgo.
No parque da minha cidade há uma fonte,
pedra estéril e silenciosa sem memória
do rumorejar da água
nem das nossas bocas em tardes quentes 
de verão.

[...]




Lídia Borges (reeditado)