quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Outras e Estranhas

 (pintura: Anne Packard)

Eu e a palavra

compartilhamos um mesmo espaço

onde nos gladiamos e nos amamos

mutuamente.

Convivemos na topologia acidentada da página,

campo de flores ou campo de batalha

e nada nos é completamente impossível,

completamente possível

na anatomia inacabada de um poema.

 

E tudo nos une misteriosamente

unha e carne

mesmo quando nada parece aproximar-nos

e lês cal onde escrevo água

e soletras vento onde escrevo sede

e onde depositas o azul eu estendo

cinzentos lagos parados.

 

Respiramos o mesmo oxigénio rarefeito

e partimos juntos para todas as viagens

mas, a cada regresso, contemplamo-nos

frente a frente, outras e estranhas.


Lídia Borges