(pintura: Anne Packard)
Eu e a palavra
compartilhamos um mesmo espaço
onde nos gladiamos e nos amamos
mutuamente.
Convivemos na topologia acidentada da
página,
campo de flores ou campo de batalha
e nada nos é completamente impossível,
completamente possível
na anatomia inacabada de um poema.
E tudo nos une misteriosamente
unha e carne
mesmo quando nada parece aproximar-nos
e lês cal onde escrevo água
e soletras vento onde escrevo sede
e onde depositas o azul eu estendo
cinzentos lagos parados.
Respiramos o mesmo oxigénio rarefeito
e partimos juntos para todas as viagens
mas, a cada regresso, contemplamo-nos
frente a frente, outras e estranhas.
Lídia Borges
