Chegou pelos “CTT Expresso”. Este e mais alguns para que não tivesse de vir sozinho. Nos últimos tempos, tem sido tão mínima a vida que o recebimento de livros é coisa para se lhe apor o título de “Acontecimento”. Nunca, antes destas limitações impostas pela pandemia, me apercebera, com tal clareza, de como um livro pode mudar o estado de espírito de um leitor incurável. A mensagem avisava que seriam entregues hoje. Levantei-me com o ânimo renovado, a rondar a temperatura média para a época, quando nos últimos dias se verificara, no dito indicador, uma descida acentuada a igualar os níveis das neves mais frias de janeiro.

O Contra Mim de Valter Hugo Mãe vai ter de
esperar um pouco até ser o objeto de circunspeção, mas não resisti ao prefácio
da Srª Nélida Piñon, uma escritora admirável que tive a sorte de ver e ouvir, ao vivo,
no Corrente D’Escritas, em 2019 – A Cultura é uma paixão sem freio. Ela está
entre os homens para semear a discórdia. - E nunca mais a perdi de vista. Uma
pessoa com uma visão do mundo, da vida e da literatura conhecedora e lúcida, dona de uma generosidade nata que transborda
de cada palavra, de toda a fala.
Luís Miguel Nava, Poesia. É um poeta de cuja obra conheço quase nada. Um poema lido aqui, outro ali. Não podia deixar passar este volume belíssimo que reúne a sua obra completa (1979 - 1994), numa edição de Ricardo Vasconcelos, Assírio & Alvim, trazido a público, agora que se completa um quarto de século sobre o desaparecimento do poeta, aos 37 anos.
Este não vai precisar de ficar em espera. Se alguma espera lhe for imposta, será a que sempre reservo à Poesia, (com maiúscula), ao abrigo de uma máxima que tenho para mim como inultrapassável. A Poesia não é para se ler. É para se morar nela. Demorar, degustá-la paulatinamente como uma iguaria rara que exige ao paladar atenção, requinte e contensão. Um poema como uma delicada trufa de limão siciliano. Comer a caixa toda, de uma só vez, é estragar.
Lá iremos.
Para
já, Mário de Carvalho – Quem Disser O
Contrário é Porque Tem Razão. E eu estou tão de acordo com o contrário
deste contrário que… alguma razão devo ter! Gosto deste jeito sabedor e simples
que o Mário de Carvalho tem de dizer as coisas: Letras Sem Tretas.
Começa
assim:
Volta e meia certa história oriental é
recordada, numa versão ou noutra. No cinema também já apareceu. Retomo hoje a
tradição. Uma mulher queixa-se a um juiz: «A minha vizinha roubou-me a cabra, o
mel e o homem. Faz-me justiça.» E o juiz diz-lhe: «Tens razão.» Mal ela sai,
rompe a vizinha pela casa do juiz aos gritos: «Foste enganado por aquela mulher.
O homem e a cabra e o mel sempre foram meus. Ela é que mos roubou.» «Tens razão»,
confirma o juiz. A mulher do juiz, que tinha ouvido tudo, interpelou-o,
agastada: «Como é que foste dar razão a duas criaturas que afirmam exatamente o
contrário?» Responde o juiz: «Tens razão.»
[…]
Lídia Borges
