quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Não digas nada

 


É uma tentação acolhedora

a que me tem visitado

ultimamente:

quando as palavras se insinuam

borbulhantes

nos bastidores da fala,

ignoro-as

como ao gato que reclama alimento

depois de comer.

 

Ficar só com a Poesia,

a sós com a Poesia.

Mas… instala-se, depois,

aquele sentimento miserável

de ter amordaçado o Outro de mim,

em mim.

 

Aquele que desconfia,

que interroga o Belo, as comoções,

as contradições, as alusões...

o que tem o poder da linguagem

e intenta continuamente

contra qualquer broto

de emudecimento.

 

Não digas nada. Escuta só.

O poema tem voz e quer falar-te.



Lídia Borges

(foto minha, tm., hoje)