Que farei com este azul que me beija?
É uma entre mil outras perguntas que me vão ocorrendo, a cada instante. De repente, o perguntar parece ser a única possibilidade concreta de formular um pensamento coerente. A interrogação ganhou primazia, ampliou-se, paira sobre as cabeças como nuvens de chuva, à flor dos dias. E das respostas vislumbra-se apenas um zunido surdo, um esquisso que a incerteza assume pacificamente como a "nova normalidade".
Esse azul a que me refiro, aí, na primeira linha, é a Poesia. (Para mim, claro. Para o leitor pode ser outra coisa qualquer). Também a ela, à Poesia, eu interpelo, a ver se me desoculta um qualquer sentido para tudo isto, a ver se o mesmo irrompe das ruínas deste presente que parece querer romper de vez com o passado. Uma tecla, um delete e, automaticamente, a História da humanidade deixa de ter préstimo. Nem conhecimento nem aprendizagem nem exemplo. Guerras, terrorismos, fascismos, extremismos, tudo lançado ao leito do rio do esquecimento. A Memória, um poço negro de água nenhuma. Não incomoda a sede extrema?
Na Poesia, é como se o espanto experimentado ao contemplar uma ameixieira em flor fosse um crime de lesa pátria. Como se apenas as estridências do Contemporâneo, seus vocábulos bélicos, seus rangeres de dentes arrepiantes, seus roncos subterrâneos pudessem ser alimento para o poema.
E o poeta pudesse ser chamado de tal, quando desenraizado de qualquer cadeia cultural e afetiva que lhe seja morada e Identidade.
Com este azul que me beija que farei? Versos. Como meio de desobediência à vil desumanização que deu em alastrar por todo o lado. Há esperança, eu sei. Há esperança porque há lugares de Poesia dentro e fora de cada um de nós - não, isto não é uma pergunta - só falta mesmo procurá-los e encontrá-los.
Lídia Borges
(imagem: pesquisa s/ ind. autoria)
