sexta-feira, 26 de novembro de 2021

A Poesia é outra coisa




Ler um poema pode ser quase tudo

inclusive um momento de não-poesia.

Não o leias.

A Poesia é outra coisa.

É virar do avesso o corpo

e surpreender-se 

ao constatar que tudo está ainda por dizer.

e saber da inacessibilidade absoluta

do não-dito. 

 

Por isso as palavras vibram, incapazes

desassossegadas.

Quando convocadas sobrevoam récitas:

um bê-a-bá da dor, da incógnita, da pouqueza, 

sopro triste ou fausto

a evolar-se no primeiro avistamento de terra.

 

Um enternecimento brusco move-se, porém,

no lugar do coração. 

Contrai-se, distende-se, percorre as veias, 

latejante e pueril.

Prolonga-se sob a proteção da hipérbole

E não reage ao sim nem ao não

Da tua imagem imóvel posta diante da água 

intransponível.

 

Tão estranho tudo isto!

Interrogas os sentidos.

Uma torrente de palavras sem sentido

devolve-te um poema embrulhado em neblina

a escorregar devagarinho

pela ferrugem fria do fim de tarde.

 

Não o leias. A Poesia é outra coisa.


Lídia Borges


(imagem: pinterest s/ ind, autoria)