inclusive um momento de
não-poesia.
Não o leias.
A Poesia é outra coisa.
É virar do avesso o corpo
e surpreender-se
ao constatar que tudo está ainda por
dizer.
e saber da inacessibilidade
absoluta
do não-dito.
Por isso as palavras vibram, incapazes
desassossegadas.
Quando convocadas sobrevoam
récitas:
um bê-a-bá da dor, da incógnita, da pouqueza,
sopro triste ou fausto
a evolar-se no primeiro avistamento de terra.
Um enternecimento brusco
move-se, porém,
no lugar do coração.
Contrai-se, distende-se, percorre as veias,
latejante e pueril.
Prolonga-se sob a proteção
da hipérbole
E não reage ao sim nem ao
não
Da tua imagem imóvel posta diante da água
intransponível.
Tão estranho tudo isto!
Interrogas os sentidos.
Uma torrente de palavras
sem sentido
devolve-te um poema embrulhado
em neblina
a escorregar devagarinho
pela ferrugem fria do fim
de tarde.
Não o leias. A Poesia é outra coisa.
Lídia Borges
(imagem: pinterest s/ ind, autoria)
