sábado, 15 de janeiro de 2022

Fosse Poesia e eu saberia

                                                                         Imagem: René Magritte, da série A Traição das Imagens (1928/1929)

Fico cá fora, sim.

Não. Não gostaria de entrar, obrigada.


 

Vê-se melhor para dentro

do lado de fora, como sabe,

que não sujeitos os olhos

às vãs ilusões do momento.

 

Bem, a ventã é espaçosa,

as lâmpadas, luas led vintage

de artificialidades garantidas.

 

Veja, repare como engolem

copos fumos vícios sapos vivos.

Diga-me, 

alguma vez os viu tão nitidamente

lá de dentro? 


Repare como riem alegremente

uns com os outros, cara a cara

uns dos outros, pelas costas.

Observe-os por dentro, 

daqui, do lado de fora.

Veja como são lestos 

na arte da palmadinha

antes ou depois

da facada nas costas.

 

 

Há um não-sei-quê a uni-los,

não lhe parece?

A torná-los terrivelmente equivalentes.

Há um não-sei-quê, isso há.

Fosse Poesia e eu saberia.


[...]

 

Fica então, senhor, convictamente,

do lado de fora?

Sim, como poderá compreender,

não fundem à mesma temperatura

todo e qualquer poema 

todo e qualquer Ser.

 

 

Lídia Borges