sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Outras vozes


DIÁRIO

Gonçalo M. Tavares -  (in Jornal de Letras, Artes e Ideias, n. 1338, p:36)

 Sobre o nevoeiro (3)

O baterista

[...]

É preciso bater no que merece ser amolgado como a chapa de um carro e as máquinas aí estão em pose paradíssima de quem justifica um taco de golfe no lombo duro, elétrico e programado.

Tirar o som ao tempo; bater com o batuque no crânio do futuro, e de lá, desse crânio de que só vemos a nuca, tirar uma melodia qualquer que impeça um sujeito de desistir.

Bate em cheio na nuca do futuro com uma baquete já bamba do teu avô, e dessa nunca tirarás o som que ela - a nuca - queria guardar só para si, numa espécie de segredo.

O crânio do futuro é um cofrezinho mais ou menos delicado de ossos que não se devem quebrar à força com um martelo como, em tempos se fazia aos opositores políticos. O futuro não é um opositor político, mas por vezes gosta de troçar de quem está atrás de si.

[...]

Não podes dançar as mesmas músicas sempre. Isso não é memória, é quase crime.

De manhã, há nevoeiro, sim, mas há também mais futuro.

 De noite, há menos futuro, mas bem mais presente. É uma questão de contas simples de somar. 

Quando está a terminar uma existência ou apenas um dia, o que sobra exige a tua máxima presença.

Nem média presença, nem presença mínima. Máxima presença. 


GMT

(imagem: pesquisa google s/ind. autoria)