sábado, 5 de março de 2022

AINDA QUE NINGUÉM TE OIÇA

 


Dás por ti a meio da noite

acordado por uma tremenda discussão

de deuses.

Levantas-te em bicos de pés

quando todas as vozes

já se acautelaram,

pressentindo-te em vigília.

 

Mal podes dar um passo,

espessas são as ruínas, no teu pesadelo.

E no silêncio atroz ferve ainda a ira dos fortes.

 

É em sobressalto que chegas ao real

e recuperas a palavra:

a esta hora gélida, debaixo do chão…

a esta hora gélida, a fuga…

a esta hora gélida, a morte…

 

Ainda que ninguém te oiça,

maldizes os deuses e os homens.

Divididos.

Maldizes seus jogos  de horror,

suas monstruosas armas

secretas e cegas.


Lídia Borges