I
Cada vez há menos cronópios, Cortázar.
Se soubesses como andam sumidos!
Por vezes, em momentos de atenção suprema
julgo ainda pressenti-los. Elevo-me,
os pés apartando-se do solo.
Estendo as mãos e milagrosamente
apanho dois ou três. Que sorte!
Posso assim verificar se são ilusão,
somente.
Miro-os à lupa de um e de outro lado:
muito verdes, muito tímidos, muito ingénuos, quase crianças
idealistas incontidos, ares de desordem
a contaminar certezas, impurezas, esperanças.
É fascinante vê-los flutuar sobre tudo
pessoas, objetos, palavras.
Todavia, imperfeita a doce aparição
se permito que meus pés toquem o chão.
II
Quando se tem a fortuna
de encontrar uma criação de cronópios
aprende-se logo a fazer bolinhas de sabão sem sabão
e a dirigir bailados aéreos de frutos de dentes-de-leão
alegremente soprados,
e as borboletas…
(podem ser amarelas, estas,
como as de Buenos Aires, naquele teu dia
último)
as borboletas pequeninas, em bandos
apanham a ponte aérea da primavera para o outono,
e... a epifania acontece,
grinaldas de flores e flocos de todas as cores
esvoaçam sob um céu que entontece.
Os cronópios estão a pentear
as crinas
às varandas da insubordinação.
Não. Não são só ilusão!
Lídia Borges
