segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Cronópios


I

Cada vez há menos cronópios, Cortázar.

Se soubesses como andam sumidos!

 

Por vezes, em momentos de atenção suprema

julgo ainda pressenti-los. Elevo-me,

os pés apartando-se do solo.

Estendo as mãos e milagrosamente

apanho dois ou três. Que sorte!   

Posso assim verificar se são ilusão, somente.

 

Miro-os à lupa de um e de outro lado:

muito verdes, muito tímidos, muito ingénuos, quase crianças

idealistas incontidos, ares de desordem

a contaminar certezas, impurezas, esperanças.

 

É fascinante vê-los flutuar sobre tudo

pessoas, objetos, palavras.  

Todavia, imperfeita a doce aparição

se permito que meus pés toquem o chão.

 

II

Quando se tem a fortuna

de encontrar uma criação de cronópios

aprende-se logo a fazer bolinhas de sabão sem sabão 

e a dirigir bailados aéreos de frutos de dentes-de-leão 

alegremente soprados,

 

e as borboletas…

(podem ser amarelas, estas,

como as de Buenos Aires, naquele teu dia último)

as borboletas pequeninas, em bandos

apanham a ponte aérea da primavera para o outono,

e... a epifania acontece,

grinaldas de flores e flocos de todas as cores

esvoaçam sob um céu que entontece.

 

Os cronópios estão a pentear as crinas

às varandas da insubordinação.

Não. Não são só ilusão!

 

 

Lídia Borges