quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Arte Poética

 


Coloca o fato de proteção
o capacete, as barbatanas,
o tubo e o bocal
para continuares a respirar
quando mergulhado no mar
conturbado da linguagem.

Verás à entrada do poema,
um lirismo extasiado, a voz do vento
roçando velas e mastros
em desvario.

Não te esqueças:
deves chamar ao barco, sonho,
crina, ao vento,
ave, ao coração
se o teu nasceu para voar.
Recolhe tudo o que te espanta
na gestação dos dedos.

Rompe a aridez das palavras
demasiado concretas. Despe-as devagar,
deixa que se signifiquem amplamente.
Dá-lhes a beber umas gotas de loucura,
e de ternura, uma mão bem cheia.
Toda a sede é distância
na porta entreaberta do poema.

Deixa que se escrevam por si, as palavras
na pele branca de uma folha de papel,
ébrias de sobriedade.


Lídia Borges (Baile de Cítaras)

Imagem: Anne Packard