domingo, 5 de fevereiro de 2023

Tangerinas

 


I

Sinto-me por vezes um estranho, em casa.

Desculpo-me com a noite passada em claro,

a dor no ombro - pois, a pintura, já se sabe -

e o sol de dentro apagado.

 

Recosto-me no cadeirão,

no recanto junto à janela,

um cotovelo na almofada,

o braço bom segurando o livro.

(Como pesam os livros, agora...)

 

Lá fora falam alto, riem,

colhem tangerinas  

e, momentaneamente, sou invadido 

por imagens latentes cheias de realidade

como se pudessem os versos

saber todas as paisagens interiores.

 

II

Que faço aqui enredado nestas letras

escritas por um sujeito

de bigodinho e óculos redondos

de ver além e aquém de olhos míopes.

 

Um sujeito que é todos nós

analisados de todos os lados

e não somente ele próprio, entre o sono e a vigília,

num sonho que é uma sombra de sonhar.

Não somente um ajudante de guarda-livros, 

na cidade de Lisboa.


III

Estou em crer que nunca terá vivido

o contento de colher tangerinas 

com as duas mãos erguidas

ao sol morno de um janeiro, algures.

 

A dor no ombro

não me deixa levantar o braço

à altura dos pensamentos

como se fossem estes, hoje,

as tangerinas mais altas.



Lídia Borges (05/02/2023)

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