I
Sinto-me por vezes um estranho, em casa.
Desculpo-me com a noite
passada em claro,
a dor no ombro - pois, a
pintura, já se sabe -
e o sol de dentro apagado.
Recosto-me no cadeirão,
no recanto junto à
janela,
um cotovelo na almofada,
o braço bom segurando o livro.
(Como pesam os livros, agora...)
Lá fora falam alto, riem,
colhem tangerinas
e, momentaneamente, sou invadido
por imagens latentes cheias de realidade
como se pudessem os versos
saber todas as paisagens interiores.
II
Que faço aqui enredado nestas letras
escritas por um sujeito
de bigodinho e óculos
redondos
de ver além e aquém de olhos míopes.
Um sujeito que é todos nós
analisados de todos os
lados
e não somente ele próprio,
num sonho que é uma sombra de sonhar.
Não somente um ajudante de guarda-livros,
na cidade de Lisboa.
III
Estou em crer que nunca terá vivido
o contento de colher tangerinas
com as duas mãos erguidas
ao sol morno de um janeiro, algures.
A dor no ombro
não me deixa levantar o
braço
à altura dos pensamentos
como se fossem estes,
hoje,
as tangerinas mais altas.
Lídia Borges (05/02/2023)
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