segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Pelas ruas da cidade

Vagabundo 

I

Não é a primeira vez que reparo nele.

O cão guarda-o, vigia-lhe os gestos.

Ele lê. Sim, lê calmamente um livro velho 

sentado na soleira de uma porta velha, de uma casa velha.

Ele é um jovem vagabundo,

sentado entre as tralhas sujas que transporta consigo

pelas esquinas da cidade.

Ao lado, sempre, o cão tão vagabundo quanto o dono.

 

De todas as vezes que o vi, ele lia.

Há quem lhe estranhe o hábito,

há quem lhe entregue um saquinho da pastelaria,

ali ao lado.

Levanta a cabeça do livro, de vez em quando,

os olhos pousados em coisa nenhuma, lá à frente,

um sorriso pendurado nos lábios,

como se medisse o alcance do que lê.

O cão repete-lhe o gesto. Levanta a cabeça,

olha em frente e logo depois fecha os olhos

e volta a pousar o focinho

nas patas dianteiras, cruzadas.

 

II

O dono retoma a leitura.

Pergunto-me que lerá com tamanho desvelo?

Talvez aquele poema que fala de uma porta 

entreaberta para uma cidade

banhada de sol e paz e alegria,

uma cidade onde crescem flores e sonhos

de todas as cores, por todo o lado,

onde ninguém sabe o que é a fome, o frio,

o abandono, a solidão,

onde todos são pessoas inteiras e atenciosas

e os animais não têm medo delas.

Nenhum habitante da cidade sabe ao certo 

o significado a palavra “guerra”

muitos não sabem sequer da existência da palavra “guerra”

e nem querem saber.

São aprazíveis todas as horas dos dias e das noites.

 

III

A tal porta, tão perto, entreaberta para a cidade

mesmo ali ao fundo da rua

sem que ninguém mexa um só dedo

para a abrir, de par em par. 

Só mais adiante, o poeta fala de utopia. Mais adiante.

Mas o vagabundo não leu ainda o livro todo.

Fecha-o na página mais luminosa:

“Uma cidade onde crescem flores e sonhos

onde ninguém sabe o que é a fome, o frio

o abandono, a solidão”.

Fico com essa convicção ao vê-lo sorrir, agora,

como se pedisse desculpa por ser feliz

sentado ao sol com o seu cão, à porta de uma casa,

fechada, sem dono, no centro, não daquela outra cidade,

mas desta que construímos.


(Escrito a partir de uma observação concreta, pela manhã, num domingo de sol)


Lídia Borges (inédito)