Vagabundo
I

O cão guarda-o, vigia-lhe os gestos.
Ele lê. Sim, lê calmamente um livro velho
sentado na soleira de uma porta velha, de uma casa velha.
Ele é um jovem vagabundo,
sentado entre as tralhas sujas que transporta consigo
pelas esquinas da cidade.
Ao lado, sempre, o cão tão vagabundo quanto o dono.
De todas as vezes que o vi, ele lia.
Há quem lhe estranhe o hábito,
há quem lhe entregue um saquinho da pastelaria,
ali ao lado.
Levanta a cabeça do livro, de vez em quando,
os olhos pousados em coisa nenhuma,
um sorriso pendurado nos lábios,
como se medisse o alcance do que lê.
O cão repete-lhe o gesto. Levanta a cabeça,
olha em frente e logo depois fecha os olhos
e volta a pousar o focinho
nas patas dianteiras, cruzadas.
II
O dono retoma a leitura.
Pergunto-me que lerá com tamanho desvelo?
Talvez aquele poema que fala de uma porta
entreaberta para uma cidade
banhada de sol e paz e alegria,
uma cidade onde crescem flores e sonhos
de todas as cores, por todo o lado,
onde ninguém sabe o que é a fome, o frio,
o abandono, a solidão,
onde todos são pessoas inteiras e atenciosas
e os animais não têm medo delas.
Nenhum habitante da cidade sabe ao certo
o significado a palavra “guerra”
muitos não sabem sequer da existência da palavra “guerra”
e nem querem saber.
São aprazíveis todas as horas dos dias e das noites.
III
A tal porta, tão perto, entreaberta para a cidade
mesmo ali ao fundo da rua
sem que ninguém mexa um só dedo
para a abrir, de par em par.
Só mais adiante, o poeta fala de utopia. Mais adiante.
Mas o vagabundo não leu ainda o livro todo.
Fecha-o na página mais luminosa:
“Uma cidade onde crescem flores e sonhos
onde ninguém sabe o que é a fome, o frio
o abandono, a solidão”.
Fico com essa convicção ao vê-lo sorrir, agora,
como se pedisse desculpa por ser feliz
sentado ao sol com o seu cão, à porta de uma casa,
fechada, sem dono, no centro, não daquela outra cidade,
mas desta que construímos.
(Escrito a partir de uma observação concreta, pela manhã, num domingo de sol)
Lídia Borges (inédito)