domingo, 26 de março de 2023

Lembras-te?

 


Agora te lembras:

era uma caixa velha de sapatos

- a costura das bonecas.

Em que lugar do sótão antigo

tomado por aranhas e poeiras

a deixaste?

Agora te lembras, 

- o cheiro a infância que ela deitava!

 

Bem no seio da sombra,

lá no fundo da memória,

é provável que se ocultem

outras caixas esquecidas. Muito provável.

 

Houvesse um modo de alcançá-las daqui,

encontrarias talvez as mais velhas raízes do olhar

pontas de espantos por certo,

as cores primárias das inibições e dos medos e das lágrimas,

azul de cristal, rubro de sangue, amarelo de febre

cores frias de névoas e lonjuras, límpidas de dessaberes  

 

Quem sabe não encontrarias

no fundo de uma dessas caixas perdidas

o cavalinho de feltro que a mãe fez para ti?

Lembras-te? Tão perfeito, o cavalinho!

Tão quieto e calado.

Grave no seu ver verde de botão

como se antecipasse, 

dos trilhos a atravessar,

a pele persistente da solidão.


Lídia Borges


(imagem: pintura nipónica s/ ind. autoria)