Agora te lembras:
era uma caixa velha de
sapatos
- a costura das bonecas.
Em que lugar do sótão
antigo
tomado por aranhas e
poeiras
a deixaste?
Agora te lembras,
- o cheiro a infância que ela
deitava!
Bem no seio da sombra,
lá no fundo da memória,
é provável que se ocultem
outras caixas esquecidas. Muito provável.
Houvesse um modo de
alcançá-las daqui,
encontrarias talvez as mais velhas raízes do olhar
pontas de espantos por certo,
as cores primárias das inibições e dos medos e das lágrimas,
azul de cristal, rubro de sangue, amarelo de febre
cores frias de névoas e lonjuras, límpidas de dessaberes
Quem sabe não
encontrarias
no fundo de uma dessas caixas perdidas
o cavalinho de feltro que a mãe fez para ti?
Lembras-te? Tão perfeito, o cavalinho!
Tão quieto e calado.
Grave no seu ver verde de
botão
como se antecipasse,
dos trilhos a atravessar,
a pele persistente da solidão.
Lídia Borges
(imagem: pintura nipónica s/ ind. autoria)
