quarta-feira, 29 de março de 2023

Ouço bater

 


Removo o coração

como quem desliga o portátil

e pouso-o à cabeceira,

quando um sono de luminescências

se abeira da minha porta.

 

Ouço bater

com os nós dos dedos,

suavemente, primeiro

mais forte, depois… mais forte.

 

Ardem-me os nós dos dedos

mas não tenho à mão o coração

para que me seja palpável a tua dor na distância.

Está desligado, sem energia nem bateria, o coração

e, livre dele, nada em teu passar

me magoa ou seduz.

  

Quando acordo ligo-o e logo me lembro de ti

um corpo sem coração, que vive 

e me pede água.



Lídia Borges