quarta-feira, 22 de março de 2023

Rosa Montero



 Conheci-a e ouvi-a pela primeira vez no Correntes D'escritas. A Louca da Casa, eu não li, mas logo depois de terminada a sua interessante intervenção, no Festival Literário da Póvoa de Varzim, de como o cérebro dos "criadores de arte" se (des)organiza perante o mundo, fui procurar O perigo de estar no meu perfeito juízo. Li-o tão depressa que julguei ter avançado páginas. É estonteante sermos levados, a grande velocidade, por caminhos até aí apenas pressentidos, como uma fotografia desfocada que de repente se nos torna nítida.


Pág. 11:

(...) Voltando à abundância de manias entre os criadores, e para mencionar apenas umas quantas como aperitivo, dir-vos-ei que Kafka, além de mastigar cada garfada trinta e duas vezes, fazia ginástica nu com a janela aberta e um frio de rachar; Sócrates usava sempre a mesma roupa, andava descalço e dançava sozinho; Proust meteu-se um dia na cama e não voltou a sair (e fizeram o mesmo, entre muitos outros, Valle-Inclán e o uruguaio Juan Carlo Onetti); Agatha Christie escrevia na banheira; Rausseau era masoquista e exibicionista; Freud tinha medo de comboios: Hitchcock de ovos; Napoleão de gatos; e a jovem escritora colombiana Amalia Andrade, a quem fui buscar os três últimos exemplos de fobias, receava na infância que lhe crescessem árvores dentro do corpo por ter engolido uma semente...


Bom, perante isto, "estar no perfeito juízo" parece não augurar nada de bom aos criativos. As drogas, a que muitos recorrem, descomprimem, adormecem a consciência, alienam, libertam de normas e convenções de qualquer índole, por um lado, mas, por outro  são uma opção desgraçada que serve sobretudo para amalucar de vez os malucos que, por meio delas, tentam (alguns conseguem) ascender à almejada "família lamentável e magnífica dos nervosos" que, segundo Montero, são "o sal da Terra".  

Eu que não sou nada sem as palavras, sempre me julguei normal, sem musas nem drogas (algumas manias, talvez, nada de mais) dou por mim a reconhecer  que o conceito de  normalidade, na verdade, não existe pois que se compõe de uma conjugação de critérios tão variados e heterogéneos que ninguém os reúne em si mesmo, completamente. Concluindo: normal é não ser normal e este facto nada tem de perigoso, pode até ser (e é) o que torna cada um, um ser único entre milhões de outros seres únicos. 


Lídia Borges