segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Jon Fosse

 JON FOSSE (o mais recente Prémio Nobel da Literatura)


Não sei se a minha experiência de ler este primeiro livro de Jon Fosse - "manhã e noite" - na terra de origem do seu autor, a Noruega, teve alguma influência na forma como o li, mas alguma deve ter tido. É que este é um país onde tudo me parece tão complicado e ver nele o simples que encontrei nestas páginas, deixa-me um pouco baralhada. Só um exemplo: não se pode abrir a porta da rua sem primeiro reforçar o vestuário, mais uma camada de roupa, os cachecóis, as luvas, os gorros, os casacões, aqueles fatos medonhos que as crianças têm de vestir para poderem brincar nas poças de água da floresta, à vontade, e eu a perguntar-me como poderão mexer-se, presos em tanto tecido acolchoado e impermeável. E depois de tanta movimentação, tanta canseira, tanto cordão para apertar, depressa, sair de casa muito depressa antes que, preparados para o frio, o calor do interior nos mate. Enfim, para sair é preciso pensar em tanta coisa que chego a esquecer-me do que ia fazer lá fora.
Mas, voltando a Jon Fosse: tão fácil, palavrinhas leves, desprovidas de qualquer artifício, palavrinhas assim como se flocos de neve cheios de mesuras para com os arbustos e ervinhas onde pousam, não tantas quando, agrestes e gelados, se dissipam no coração das pessoas.
E eu… sim, é bem bom, mas, bem, comparado com Lobo Antunes… Vá, repreendo-me de imediato, mas que raio de “bairrismo” é esse, agora? A literatura é o que tem de ser, verdadeira até osso, de modo a que nem sequer se dê por isso.
Fechar o livro e começar a relê-lo, já sem precisar dos óculos, reparar, ir assimilando a força da palavra com sentido, toda ela sentido, a tocar a alma das coisas, tão profundamente que é impossível ficar indiferente. Este livro fala do misticismo que, na perspectiva do autor, envolve o nascimento e a morte – “a manhã e a noite”. Pelo meio, algumas flores, algumas dores, um afago de sol, um pedacinho de noite, nada a lamentar, nada a acrescentar. Assim a vida, e é tudo!


Lídia Borges