Valter Hugo Mãe
JL, N.º 1395 (de 24 de janeiro a 6 de fevereiro, 2024)
[…]
Tenho memória de pássaro,
guardo pouco mais do que o azul como aprendizado de cada dia. Minha grande
frustração, tanto leio como releio, quase tudo me é novo porque uns poucos anos
me apagam na cabeça o que haveria de sedimentar.
Estou devolvido à
primeira aventura, ao espanto inicial. Sou sem culpa, sem truque, sem poder.
Sublinho e risco para criar aparato e ajudar a memória, mas posso lembrar
sobretudo se vir a minha própria inscrição, mas baralho cada coisa, mudo personagens,
troco autores, jamais sei citar um título, naturalmente, não me vem uma frase
inteira à cabeça. Às vezes, quando há um impacto astronómico, sei de uma
palavra. Uma palavra que me ficou como se fosse outro nome de um autor. Um país
onde só ele vive.
[…]
Li a crónica e sublinhei estas
linhas para criar aparato ou talvez porque vi nelas a minha própria
inscrição.
Lídia Borges
(ilustração: Valter Hugo Mãe, in JL)
