Nesse lugar alto como uma montanha,
liso como um vale deitado no verde
intocado,
do bulício das ruas e das vozes vazias,
livre…
Nesse lugar emerso entre camadas e camadas
de matéria invisível, indizível,
esse lugar onde retorno sempre
para repousar, depor cansaços,
arrumar a bagagem (pouquíssima)
despir o casaco, descalçar os sapatos
e ficar
a escutar um prelúdio sem origem lógica:
riso, onda, fonte, fado, festa…
A quem pertence? De onde vem?
Quem, de tão longe, intenta
semear papoilas no meu desassossego?
Quem?... O quê?...
Não sei, não sei.
Ficar de olhos fechados,
os braços como giestas em flor
ondulando num vento que não existe.
Mas adivinho.
Ficar atenta dentro de um só verso
daquele soneto de ontem que ninguém
escreveu.
Sorver a breve ardência do Sol que lhe entrava
porta adentro,
bebedeira acesa entre o real e o imaterial.
Lídia Borges
