sábado, 20 de janeiro de 2024

Prelúdio


 

Nesse lugar alto como uma montanha,

liso como um vale deitado no verde intocado,

do bulício das ruas e das vozes vazias, livre…

 

Nesse lugar emerso entre camadas e camadas

de matéria invisível, indizível,

esse lugar onde retorno sempre

para repousar, depor cansaços,

arrumar a bagagem (pouquíssima)

despir o casaco, descalçar os sapatos

e ficar

a escutar um prelúdio sem origem lógica:

riso, onda, fonte, fado, festa…

A quem pertence? De onde vem?

Quem, de tão longe, intenta

semear papoilas no meu desassossego? 

Quem?... O quê?...

Não sei, não sei.

 

Ficar de olhos fechados,

os braços como giestas em flor

ondulando num vento que não existe.

Mas adivinho.

 

Ficar atenta dentro de um só verso

daquele soneto de ontem que ninguém escreveu.

Sorver a breve ardência do Sol que lhe entrava 

porta adentro,

bebedeira acesa entre o real e o imaterial.

 Aí, onde todos os cânticos são possíveis.

 

Lídia Borges