(Pintura - Vladimir Kush)
Destronados à força
do equilíbrio a que nos habituámos
observamos absortos
a rua onde todo o movimento
cessa. Só o choro da chuva
soa frio no fundo da retina
e nunca os horizontes interiores
se irmanaram tão justamente
à estreiteza do sol.
Poder ser ainda um abraço fechado
para te guardar menina,
cheia de sonhos e fulgores
e borboletas a brincar-te nos olhos.
Neles não se descortinava ainda a sombra
de futuros a florirem em longínquos
jardins de gelo e boreais auroras.
No regaço deserto de hoje
subitamente,
um poema estilhaça-se com ruído. Em
queda
mil fragmentos vão aninhar-se
num misterioso lago de torpor.
Lídia Borges (reeditado)
