sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Abraço

 

(Pintura - Vladimir Kush)

Destronados à força

do equilíbrio a que nos habituámos

observamos absortos

a rua onde todo o movimento

cessa. Só o choro da chuva

soa frio no fundo da retina

e nunca os horizontes interiores

se irmanaram tão justamente

à estreiteza do sol.

 

Poder ser ainda um abraço fechado

para te guardar menina,

cheia de sonhos e fulgores

e borboletas a brincar-te nos olhos.

Neles não se descortinava ainda a sombra

de futuros a florirem em longínquos 

jardins de gelo e boreais auroras.

 

No regaço deserto de hoje

subitamente,

um poema estilhaça-se com ruído. Em queda 

mil fragmentos vão aninhar-se 

num misterioso lago de torpor.


Lídia Borges (reeditado)