Leio:
é um lugar
sem chão, mas
nesse lugar há
vida e vozes e asas
e murmúrios e
imagens e versos
que me foram e são
fermento.
Lídia Borges
Em momentos de alguma lucidez, constato que a Memória guarda, entre mil coisas insignificantes, textos apócrifos, escritos sem um mínimo de organização cronológica, autoral, ausência de referências bibliográficas, de nexos entre ideias e objetos, e de outros requisitos que nos permitem tecer uma rede de percepções inerentes à maneira própria de estruturar o conhecimento, com que se planeia e enfrenta o futuro. A Memória, esse lugar próximo e paradoxalmente distante tem os seus enigmas, grutas insondáveis, obstinações.
Passa lá um rio, isso eu sei. É um rio de gente viva que amei tanto na vida como amo na morte, águas cortadas, interrompidas (abruptamente, algumas), um rio ao qual não reconheço destino de mar. É uma corrente de pessoas, mas também das ideias, dos princípios e valores que delas colhi e me serviram (servem) de farol, em todos os tempos. É um rio estranho, esse. Se lhe falta caudal, inscreve-se noutros leitos, noutros textos que, cheios de rasuras, não ousam cortar-me as v(e)ias de contacto, obrigando-me ao isolamento, à escuridão. Não podem.
Pergunto se a Memória será um lugar concreto e estático, onde se possa morar. Penso que não. Ainda que o fosse, não saberia como lá chegar nem mesmo com o mais evoluído dos aparelhos de navegação existentes. Não decidimos ir. Só lá, temos consciência do sítio onde nos encontramos e todas as visões em redor são passado. Quando de lá se regressa é em queda, de cima para baixo, como um elevador vertical, sem nenhum mecanismo de controle de velocidade. Daí eu deduzir que a Memória se situa num lugar ermo, elevado, exposto a tempestades e ventos múltiplos, vindos de toda a parte, podendo, por isso, acusar algum desvio no desenho do real.
É praticamente impossível reconhecer percursos, apontar coordenadas, neste ato rápido e involuntário de cair a pique no presente. A Memória chama-nos e expulsa-nos a seu bel-prazer, fica-se à mercê dela, dona e senhora de vivências, observações, conhecimentos e tudo o que um dia lhe confiámos. Por incompetência sua, vemos, a dado momento, perdida a informação mais célere para ficarmos com a narrativa superficial da guardiã desatenta.
Hoje, a percorrer-me
o cérebro, há um desses textos guardados entre coisas insignificantes. Vou lendo. Deparo-me com afinidades que me são
por demais óbvias. Aqui e ali, ouso duvidar, coloco interrogações. Não quero cair nas
artimanhas da Memória que fala como se andasse de bicicleta, sem necessitar de tornar presente o gesto de pedalar. Eu não tolero o piloto automático, quero a consciência palpável, em cada palavra que toco. Volto atrás, refaço as frases, de modo a dar-lhes o
corpo que julgo mais cônsono. Reescrevo-as daqui, de onde vejo todas as paisagens cobertas por uma camada de falibilidade fina, causada pelo tempo que vai do acontecer ao dizer. Escrevo, contudo.
II
Sou levada por um campo de papoilas, flores vermelhas e um povo inteiro a cantar pelas ruas das cidades hinos de liberdade. Lembro-me. São páginas iniciais, primaveris que perduram no coração dos justos, tocados pela generosidade e pela benevolência do seu olhar impoluto. Leio sobre amores e desamores, sobre guerras, sobre cárceres e torturas, sobre mortes e chacinas e muros caídos e muros erguidos e desejos de abraços e desejos de armas sem remorso ou cansaço.
Leio sobre ti, tuas asas de fogo, teu corpo de sal e sol, num poema há muito escrito. Leio sobre despedidas e chegadas, sobre misérias e abundâncias, a crueldade na repartição do mel e do fel. Leio sobre o desengano e o medo, no meio de um parágrafo impróprio e, na página seguinte, o ar descontaminado, leio a força renovada, a coragem, a audácia de ficar.
São alguns destes textos que, em dias de maior nostalgia, procuro na Biblioteca da Memória, ainda que me possam ser incertos os autores que por lá deambulam, tirando e acrescentando vírgulas, reticências, pontos e contrapontos.
Lídia Borges
