terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

“Puxar os cordelinhos”

 


A expressão surgiu do nada

De um fio do pensamento desatada:

“Puxar os cordelinhos”.

Dito assim em primeira intenção

Devia ter melhor fama

Tão leveirinho é o som.

 

Parece até coisa de criança

Um cordel, fio ou cordão

Que se enrola no pião

E é ver como dança

E de rodar não se cansa

Na palma de uma mão.

 

Minha avó guardava

Quantos cordelinhos achava

Vinham a atar os cartuchos

Do grão do açúcar da cevada.

Coloridas pegas de cozinha

Com eles, a avó crochetava.

 

 “Puxar os cordelinhos”

Gesto feio, sorrateiro.

Tanto dos que puxam

Como os que deixam puxar,

mau fazer, traiçoeiro.

Já não sei de trovas ou guitarras

sem as cordas repuxadas.

 

As pegas da minha avó,

Um pião a rodar só

São fios da minha memória

Que sempre haverei de puxar.

Já para os cordelinhos

Rebanho em pasto vasto

Chamem outros, maneirinhos

Que desses, em asco me afasto.

 

Lídia Borges

(pintura: Millet, Jean-Francois, séc. XIX)