A expressão surgiu do nada
De um fio do pensamento desatada:
“Puxar os cordelinhos”.
Dito assim em primeira intenção
Devia ter melhor fama
Tão leveirinho é o som.
Parece até coisa de criança
Um cordel, fio ou cordão
Que se enrola no pião
E é ver como dança
E de rodar não se cansa
Na palma de uma mão.
Minha avó guardava
Quantos cordelinhos achava
Vinham a atar os cartuchos
Do grão do açúcar da cevada.
Coloridas pegas de cozinha
Com eles, a avó crochetava.
“Puxar os cordelinhos”
Gesto feio, sorrateiro.
Tanto dos que puxam
Como os que deixam puxar,
mau fazer, traiçoeiro.
Já não sei de trovas ou guitarras
sem as cordas repuxadas.
As pegas da minha avó,
Um pião a rodar só
São fios da minha memória
Que sempre haverei de puxar.
Já para os cordelinhos
Rebanho em pasto vasto
Chamem outros, maneirinhos
Que desses, em asco me afasto.
Lídia Borges
(pintura: Millet, Jean-Francois, séc. XIX)
