segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Livros

 

Trouxe alguns livros do Correntes D’Escritas, entre eles este que leio agora: “Viver Só” de Ana Margarida de Carvalho. Trata-se de uma reflexão sobre a questão da solidão em Portugal em “números, contexto e circunstâncias”, conforme se lê numa das badanas, mas também um explanar, face ao próprio conceito de solidão. O viver sozinho nem sempre quer dizer sentir-se sozinho.

É um texto distinto de tudo o que tenho lido da Ana Margarida Carvalho, até hoje, sempre na área da ficção. Contudo, não me arrependi ainda de ter comprado este cuja escrita é mais jornalística, função que a autora também pratica. Hoje leio o seguinte, nas páginas 34 e 35:

«É perturbador assistir a mães que, de repente, se distraem dos seus bebés e assumem uma
poker face
de quem já se sintonizou com a outra realidade paralela do ecrã. As crianças ficam desconcertadas, sentem-se perdidas e fazem tudo para chamar de volta a atenção maternal: fazem barulho tentam uma aproximação e é devastador assistir à progressiva desistência de um bebé, que cedo percebe não conseguir competir com a máquina. […] Na realidade, precocemente as crianças são confrontadas com este afastamento parental, como se fosse essa, ironicamente, uma espécie de preparação para o que as pode aguardar na vida adulta.

Segundo estudos do ISTEC (Instituto Superior de Tecnologias Avançadas) reportadas em 2010, o tempo diário que os pais dedicam exclusivamente aos filhos, mal ultrapassa a meia-hora. […]

Há muito que o escritor Mia Couto vem insistindo na ideia de voltar a rehumanizar os contadores de histórias. Porque as histórias infantis são agora contadas não por pais, avós ou educadores, mas por máquinas, nos ecrãs, e cada vez mais cedo. […]

O tempo todo, as crianças interagem com máquinas - para comer, para adormecer, para estarem sossegadas. Esta ausência – a falta do olhar, do sorriso, da expressão facial, das modelações da voz – poderá ter consequências ao nível do afastamento das crianças e do desligamento dos adolescentes… Ou, nas palavras do pedopsiquiatra Pedro Strecht: “A solidão precoce é potenciadora de uma organização neuronal de progressiva desligação em empobrecimento psíquico.»

 

Porque me dei ao trabalho de transcrever tudo isto?!

Porque, a minha preocupação ganha contornos difíceis de conter e de definir, quando as ameaças visam diretamente as crianças, pondo em perigo o futuro delas e de todos nós, enquanto coletivo.


Lídia Borges