Trouxe alguns livros do Correntes D’Escritas, entre eles este que leio agora: “Viver Só” de Ana Margarida de Carvalho. Trata-se de uma reflexão sobre a questão da solidão em Portugal em “números, contexto e circunstâncias”, conforme se lê numa das badanas, mas também um explanar, face ao próprio conceito de solidão. O viver sozinho nem sempre quer dizer sentir-se sozinho.
É um texto
distinto de tudo o que tenho lido da Ana Margarida Carvalho, até hoje, sempre na área da
ficção. Contudo, não me arrependi ainda de ter comprado este cuja escrita é mais jornalística, função que a autora também pratica. Hoje leio o
seguinte, nas páginas 34 e 35:
«É
perturbador assistir a mães que, de repente, se distraem dos seus bebés e
assumem uma
poker face de quem já se sintonizou com a outra realidade paralela
do ecrã. As crianças ficam desconcertadas, sentem-se perdidas e fazem tudo para
chamar de volta a atenção maternal: fazem barulho tentam uma aproximação e é
devastador assistir à progressiva desistência de um bebé, que cedo percebe não
conseguir competir com a máquina. […] Na realidade, precocemente as crianças
são confrontadas com este afastamento parental, como se fosse essa,
ironicamente, uma espécie de preparação para o que as pode aguardar na vida
adulta.
Segundo
estudos do ISTEC (Instituto Superior de Tecnologias Avançadas) reportadas em 2010,
o tempo diário que os pais dedicam exclusivamente aos filhos, mal ultrapassa a
meia-hora. […]
Há muito que
o escritor Mia Couto vem insistindo na ideia de voltar a rehumanizar os
contadores de histórias. Porque as histórias infantis são agora contadas não
por pais, avós ou educadores, mas por máquinas, nos ecrãs, e cada vez mais
cedo. […]
O tempo todo,
as crianças interagem com máquinas - para comer, para adormecer, para estarem
sossegadas. Esta ausência – a falta do olhar, do sorriso, da expressão facial,
das modelações da voz – poderá ter consequências ao nível do afastamento das
crianças e do desligamento dos adolescentes… Ou, nas palavras do pedopsiquiatra
Pedro Strecht: “A solidão precoce é potenciadora de uma organização neuronal de
progressiva desligação em empobrecimento psíquico.»
Porque me dei
ao trabalho de transcrever tudo isto?!
Porque, a
minha preocupação ganha contornos difíceis de conter e de definir, quando as ameaças
visam diretamente as crianças, pondo em perigo o futuro delas e de todos nós, enquanto coletivo.
Lídia Borges
