sábado, 6 de abril de 2024

À conversa com...

 


  


Um poema é antes de tudo um inutensílio

Manoel de Barros

 

 







Mas eu tenho vocação de formiga, Manoel,

com a única dissemelhança de carregar  

para a minha arrecadação coisas tão leves

como um silêncio, uma pétala ou uma gota de água 

viciada em pedra.

 

Possuo na memória uma grande fortuna 

em inutensílios e por isso, Manoel,

é que tomei este jeito de nuvem.

 

Os inútensílios eu uso-os como guarda-chuva

ou pára-vento. Às vezes solos de violino 

ou mesmo gomos de glicínias. Lilases.

 

Os meus inutensílios comprometem-me. 

Ninguém acredita que eu saiba usá-los

como sumo de limão ou rubores de melancia,

como orvalho, flor, borboleta pousada 

num ramo de tomilho...

Ninguém acredita!

 

Os meus inutensílios, Manoel,

utilizo-os como raiz e asa

para cingir horizontes.

 


Lídia Borges (reeditado)