segunda-feira, 8 de abril de 2024

A nascente

 






A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras.
Elas são a nossa única realidade ou, pelo menos,
o único testemunho da nossa realidade.

Otavio Paz










Deve saber o poeta
entrar no vale desejado
pela porta a nascente
aos primeiros alvores da manhã
quando as palavras enson(h)adas
se deixam cercar 
como chama vã
por borboletas enfeitiçadas.

Depois é só dispô-las
segundo o rumo de um pensamento 
ou de um devaneio ainda verde de tão novo:

uma branca, uma preta
a azul, a doirada, a violeta…
as doces, as cruas
em equilibradas misturas.
as chorosas, as risonhas
as engraçadas as leves as ditosas
as nuas.

E todas as outras
com que, afinal, o poeta se costura.


Lídia Borges