domingo, 14 de abril de 2024

Vagares de domingo

 


Com maio (o mês das rosas) à porta e a subida das temperaturas a contrariarem o provérbio das” cerejas ao borralho”, as roseiras acordaram e, de um momento para o outro encheram-se de flores. Reparo numa destas plantas em especial: trouxe-a de um horto, em Ponte de Lima, há anos, só caule e umas folhinhas raras a prometerem pouco ou nada. Quando floriu pela primeira vez, foi uma surpresa boa. O perfume era intenso e as pétalas, de um dos lados, exibiam um rosa carregado muito idêntico ao “rosa permanente” do meu estojo de óleos para pintura, e no reverso um rosa-pele tão inocente que enfeitiçava.

Por ser tão bonita e rara, tentei, por muitas vezes, na altura das podas, reproduzi-la, cumprindo com rigor os procedimentos usados para o efeito. Porém, todas as tentativas resultaram infrutíferas. Quer ser única, aqui, pensei comigo a dada altura. E esqueci os meus intentos até que, no ano passado, apareceu-me à frente um vídeo que mostrava como fazer a reprodução de roseiras por estaca, de um modo infalível e muito simples. Constava em espetar o caule retirado da planta mãe, devidamente cortado na diagonal numa das extremidades, não diretamente no húmus, conforme eu fazia, mas na polpa de meia batata e depois, sim, enterrá-lo preso à meia batata e esperar algum tempo até que o pequeno tronco ganhasse raiz. Voltei a lembrar-me da minha roseira bicolor e vai de pôr em prática a ideia que, diga-se de passagem, me deixou um pouco desconfiada, contudo… que tinha eu a perder? Quem sabe se os nutrientes da batata não poderiam favorecer o milagre. Processo posto em prática, cuidadosamente, sem falhar em nada.

Esperei, vigiei… imaginava já, debaixo da terra, o caule a encher-se de raízes que seriam fortes, por certo. Depois, era só transplantar e uma nova roseira, estaria ali para espantar olhares, tatos e olfatos.

Por essa altura, tive de me ausentar do país e fiquei fora por umas três semanas. Quando regressei, verifiquei que o pequeno caule, continuava no sítio onde o deixei, só que mais mirrado, enfezado e completamente seco. Juntinho dele, porém, tinha nascido outro caule cheio de folhagem de um verde audaz e muito saudável. Não se parecia com nenhuma erva daninha que eu conhecesse, mas que outra coisa poderia ser? Vai tudo para o lixo – pensei. Retirei o caule da roseira falhada e depois o outro que puxei com cuidado para trazer junto as raízes. Surpresa das surpresas: no meio destas, envoltas em pedacinhos de terra, três batatinhas perfeitas, luziam. Fiquei espantada. É que os tubérculos prematuros tinham na pele fina um tom rosa que, na minha paleta de cores, situaria entre o rosa permanente e o rosa-pele. Isto há cada coisa!...

 Quando aos meus intentos, o que dizer? Enfim! É assim a vida…pedimos rosas, dá-nos batatas.  


Lídia Borges