Com maio (o mês das rosas) à porta e a subida das temperaturas a contrariarem o provérbio das” cerejas ao
borralho”, as roseiras acordaram e, de um momento para o outro encheram-se de
flores. Reparo numa destas plantas em especial: trouxe-a de um horto, em Ponte de Lima, há anos, só
caule e umas folhinhas raras a prometerem pouco ou nada. Quando floriu pela primeira
vez, foi uma surpresa boa. O perfume era intenso e as pétalas, de um dos lados, exibiam
um rosa carregado muito idêntico ao “rosa permanente” do meu estojo de óleos
para pintura, e no reverso um rosa-pele tão inocente que enfeitiçava.
Por
ser tão bonita e rara, tentei, por muitas vezes, na altura das podas, reproduzi-la,
cumprindo com rigor os procedimentos usados para o efeito. Porém, todas as
tentativas resultaram infrutíferas. Quer ser única, aqui, pensei comigo a dada
altura. E esqueci os meus intentos até que, no ano passado, apareceu-me à
frente um vídeo que mostrava como fazer a reprodução de roseiras por estaca, de
um modo infalível e muito simples. Constava em espetar o caule retirado da
planta mãe, devidamente cortado na diagonal numa das extremidades, não
diretamente no húmus, conforme eu fazia, mas na polpa de meia batata e depois,
sim, enterrá-lo preso à meia batata e esperar algum tempo até que o pequeno tronco ganhasse raiz. Voltei
a lembrar-me da minha roseira bicolor e vai de pôr em prática a ideia que, diga-se
de passagem, me deixou um pouco desconfiada, contudo… que tinha eu a perder?
Quem sabe se os nutrientes da batata não poderiam favorecer o milagre. Processo posto
em prática, cuidadosamente, sem falhar em nada.
Esperei,
vigiei… imaginava já, debaixo da terra, o caule a encher-se de raízes que
seriam fortes, por certo. Depois, era só transplantar e uma nova roseira, estaria ali para espantar olhares, tatos e olfatos.
Por
essa altura, tive de me ausentar do país e fiquei fora por umas três semanas.
Quando regressei, verifiquei que o pequeno caule, continuava no sítio onde o
deixei, só que mais mirrado, enfezado e completamente seco. Juntinho dele, porém, tinha
nascido outro caule cheio de folhagem de um verde audaz e muito saudável. Não
se parecia com nenhuma erva daninha que eu conhecesse, mas que outra coisa
poderia ser? Vai tudo para o lixo – pensei. Retirei o caule da roseira falhada
e depois o outro que puxei com cuidado para trazer junto as raízes. Surpresa
das surpresas: no meio destas, envoltas em pedacinhos de terra, três batatinhas
perfeitas, luziam. Fiquei espantada. É que os tubérculos prematuros tinham na
pele fina um tom rosa que, na minha paleta de cores, situaria entre o rosa
permanente e o rosa-pele. Isto há cada coisa!...
Lídia Borges
