domingo, 15 de setembro de 2024

Pontos e linhas

  

Visto assim, ao longe,

o poema parece forma, somente.

Demasiado polido,

demasiado pensado.

Dir-se-ia, não de um poeta.

mas de um fazedor de linhas concretas.

 

Ponto por ponto costurado,

da fachada ao coração,

em nada espontâneo

pespontado sem desvio,

ou sinal de hesitação,

 

mas… sei que não.

Leio-o sem pressa:

percorro o trilho da luz solar

até penetrar as abóbadas da solidão;

 

observo como se inflamam os vitrais

às horas primeiras do sol;

pressinto, nos espaços do silêncio,

como as palavras de amor

se dão em juvenis devaneios;

 

escuto o fio da dor

a correr continuamente

pelo branco entre linhas;

 

vejo como a vida cresce ao cumprido do verso

e como, depois, se apequena e desce,

a custo, o declínio das estrofes

que precedem o infalível

ponto final

.

 

Lídia Borges

(Pinterest, s/ ind. autoria)