Pois bem, tem de ser: faz-se, para ela, imperioso pedir tempo para levar o coração a consertar. O que eu, Lídia, não esperava era que esse facto viesse criar um considerável desconcerto na minha vidinha quotidiana de tratadora de palavras, ao ponto de não saber retribuir-lhe, com a música de dois ou três versos, tudo o que ela, minha sombra, fez por mim, ao longo de uma vida, em comum. Desde logo, aceitar este presunçoso “minha sombra”. Pensando bem, sendo ela o corpo, sendo ela o coração, a sombra teria de ser forçosamente eu mas, numa ótica geométrica que foge, com descaramento, às leis da física, não sou. A minha existência ocupou todo o espaço do seu despojamento, sem cerimónias.
Um sentimento de culpa pesa
na meia-luz dos meus dias. Ela é a que nunca me faltou, a cuidadora, eu a que não
está, a cuidada; ela a ordem, eu o caos, ela a razão, eu a confusão, ela a própria,
eu a outra-nenhuma. Agora, que é ela a necessitar de cuidados, eu… ó céus!
Nem a música de dois ou três
versos, sou capaz de captar na metade iluminada que me toca.
Lídia Borges