quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Margaridas (Louise Glück)


 Vá, diz o que pensas. O jardim

não é o mundo real. O mundo real 

são as máquinas. Diz abertamente o que qualquer tonto

pode ler no teu rosto: que faz sentido 

evitar-nos, resistir

à nostalgia. Não é

muito moderno o som que o vento faz

ao agitar um campo de margaridas: a mente

não consegue brilhar ao segui-lo. E a mente

deseja brilhar, simplesmente,

como brilham as máquinas, não 

crescer até ao fundo como, por exemplo, as raízes, Ainda assim,

é muito comovente ver como te aproximas com cuidado

da orla do prado, de manhãzinha,

quando ninguém te vê. Quanto mais tempo

estás ali, na beira do prado,

mais nervosa pareces. Ninguém quer ouvir 

as impressões do mundo natural: vão voltar 

a rir-se de ti; vão troçar, escarnecer-te.

E quanto ao que ouves realmente

esta manhã: é melhor pensares duas vezes

antes de dizeres a alguém o que foi dito neste campo

e por quem.


In A Íris Selvagem (1992), Louise Glück / Prémio Nobel da Literatura 2020

Tradução de Ana Luísa Amaral