Vá, diz o que pensas. O jardim
não é o mundo real. O mundo real
são as máquinas. Diz abertamente o que qualquer tonto
pode ler no teu rosto: que faz sentido
evitar-nos, resistir
à nostalgia. Não é
muito moderno o som que o vento faz
ao agitar um campo de margaridas: a mente
não consegue brilhar ao segui-lo. E a mente
deseja brilhar, simplesmente,
como brilham as máquinas, não
crescer até ao fundo como, por exemplo, as raízes, Ainda assim,
é muito comovente ver como te aproximas com cuidado
da orla do prado, de manhãzinha,
quando ninguém te vê. Quanto mais tempo
estás ali, na beira do prado,
mais nervosa pareces. Ninguém quer ouvir
as impressões do mundo natural: vão voltar
a rir-se de ti; vão troçar, escarnecer-te.
E quanto ao que ouves realmente
esta manhã: é melhor pensares duas vezes
antes de dizeres a alguém o que foi dito neste campo
e por quem.
In A Íris Selvagem (1992), Louise Glück / Prémio Nobel da Literatura 2020
Tradução de Ana Luísa Amaral
