sábado, 16 de novembro de 2024

Lá como cá

 

 


Estou aqui sentada, no lugar de sempre, junto à janela.

O livro que leio, aos poucos, vai escurecendo. 

Embrenhada na narrativa demoro a aperceber-me 

que preciso de acender a luz.

Antes de o fazer, reparo

como o dia, lá fora, finda em lentas monotonias.

Os candeeiros da rua já espalham sua luz exageradamente branca

e os cães atiram-lhe latidos pardos.

É uma hora desnorteada, esta,

um misto de inquietação e nostalgia

que vem cair-me na alma, abrir as portadas de um tempo velho,

sempre igual, sempre misterioso e ilegível. Impõe-se

como uma manta de retalhos que tapa e destapa:

um sorriso aqui, uma voz lá longe

um pensamento, uma recordação,

um olhar de sol, uma palavra com asas.

Tão depressa os passos apressados da avó no corredor 

como este pássaro sem cor,

pulando nos ramos quase nus da figueira, junto à janela.

Tão depressa, lá, os deveres da casa, os cadernos

os significados, as tabuadas, 

como aqui, um teclado, um ecrã, livros lidos e por ler,

umas frases exíguas acontecidas

sobre o frémito de momentos como estes,

silentes e secretos, pousando nos meus sentidos.

E para lá do vidro, o último fôlego do dia 

quebrando, quebrando, quebrando,

até se apagar  completamente.

Lá como cá.

 

Finalmente, resolvo acender a luz:

Boa noite – digo.

Como se pudesse ainda a avó repreender-me por não o fazer, 

nestes instantes primeiros da noite.


Lídia Borges

(imagem Pinterest)