Estou aqui sentada, no lugar
de sempre, junto à janela.
O livro que leio, aos poucos,
vai escurecendo.
Embrenhada na narrativa demoro a aperceber-me
que preciso de acender a luz.
Antes de o fazer, reparo
como o dia, lá fora, finda em lentas monotonias.
Os candeeiros da rua já espalham sua luz exageradamente branca
e os cães atiram-lhe latidos pardos.
É uma hora desnorteada, esta,
um misto de inquietação e
nostalgia
que vem cair-me na alma, abrir as portadas de um tempo velho,
sempre igual, sempre misterioso e ilegível.
Impõe-se
como uma manta de retalhos
que tapa e destapa:
um sorriso aqui, uma voz lá
longe
um pensamento, uma recordação,
um olhar de sol, uma palavra com asas.
Tão depressa os passos apressados da avó no corredor
como este pássaro sem cor,
pulando nos ramos quase nus
da figueira, junto à janela.
Tão depressa, lá, os deveres da casa, os cadernos
os significados, as tabuadas,
como aqui, um teclado, um ecrã,
livros lidos e por ler,
umas frases exíguas acontecidas
sobre o frémito de momentos como estes,
silentes e secretos, pousando nos meus sentidos.
E para lá do vidro, o último fôlego do dia
quebrando, quebrando, quebrando,
até se apagar completamente.
Lá como cá.
Finalmente, resolvo acender a
luz:
Boa noite – digo.
Como se pudesse ainda a avó repreender-me por não o fazer,
nestes instantes primeiros da noite.
Lídia Borges
(imagem Pinterest)
