domingo, 10 de novembro de 2024

Leituras

 


Aconteceu-me uma súbita revelação, hoje, quando lia tranquilamente no cadeirão preferido da casa. É verdade. Com a minha idade ainda há súbitas revelações, a acontecer. Custa a crer, não é? Mas passa-se assim mesmo.  

É um velho hábito meu sublinhar, enquanto leio, partes do texto que me tocam de forma especial.

Não sublinho riscando (não gosto de desarrumações espalhadas nas páginas dos livros) mas colocando um leve traço vertical, na margem, ao lado dos fragmentos de texto que pretendo destacar. Pois, hoje, quando me preparava para o fazer, o lápis já apontado, de repente, estaca no ar, com o leve traço vertical suspenso. Era uma frase apenas, mas dizia tanto sobre mim que me quedei a pensar: não me agrada nada a ideia de partilhar com quem, depois de mim, venha ler este livro, um sublinhado tão intimamente meu. Seria como dar permissão a livro e leitor de falarem de mim, nas minhas costas. Não, não sublinhei. Sei lá o que diriam, nos dias de hoje, de sentimento tão antiquado.

A frase consta, algures, neste livrinho, (publicado, em primeira edição, bem antes de eu ter nascido) presente de aniversário de alguém que me conhece, talvez, melhor do que eu. 

Lídia Borges